Em Casa. Aqui estou eu mais uma vez, tentando recorrer a mais um assunto banal para tentar preencher o tempo de ócio no qual não quero me debruçar sobre apostilas e estudar para os concursos públicos da vida. Chove bastante lá fora e no noticiário vejo todos os transtornos e tragédias trazidas pela chuva. Percebo que a cada dia que se passa, o tempo fica pior, mais intenso. Quando chove, é demais, até o ponto de muita gente morrer. Quando faz calor, nem se fala, insuportável. Talvez seja um fato de viver num país abaixo dos trópicos ou mesmo pelas mudanças decorrentes do aquecimento global. Bom, infelicidades à parte, enquanto neva na Jamaica e esquimós chupam picolé de pitanga em Guiné Bissau ao som de Björk, eu to aqui em casa, em frente a esse monitor empoeirado que a rotina ou a preguiça (ah preguiça...) não me deixou de limpar. Arrumo uns papéis. Desço a escada. Pego biscoito e achocolatado e sento no chão da sala vendo tv e a chuva batendo na janela incansavelmente num sinjelo convite pra 'ficar em casa'. Então aqui estou. Haveria lugar mais aconchegante para se estar senão em sua própria casa pensando e remexendo lembranças infantis?
Começo a lembrar quando era pequeno, na casa da minha avó... Os domingos das férias no interior. Vinha meu primo que acabara de fazer ovos fritos e café trazido em xícaras de plástico, daquelas que ficam gosto mesmo lavando, que os nossos pais dão a gente com medo que a gente quebrasse se elas fossem de vidro ou porcelana, ou talvez porque não achassem que fossemos dignos de usar algum outro tipo que não fosse estas, pra facilitar pelas cores, até. Sentávamos-nos à mesa, que ficava numa varandinha pro quintal. Dava pra sentir aquele cheiro da terra quando a chuva batia. Dava pra sentir o cheiro (fedor na verdade) das galinhas que ficavam protegidas da chuva num depósito de tijolos e telhas para a reforma do banheiro. A lama, a grama, os cheiros. Tudo isso ainda permanece vivo em minha mente de um tempo onde não havia a opressão esmagadora do tempo e suas obrigações diárias, de um tempo de infantilidade, inocência, em que qualquer coisa era motivo pra festa ou berro desnecessário.
Doce tempo que não volta mais. Lamentar sobre isso, como fazem os poetas, acho balela. Só quero dizer sobre como as coisas mudam, ou seja, parece até que foi ontem que estive naquele local, com pessoas que hoje já não convivem mais comigo. E hoje aqui, quase 15 anos depois falando sobre algo que pensava que nunca teria relevância. E qual seria esta relevância? Não passou de um domingo de chuva banal durante um café-da-manhã familiar, right? Mais do que isso. Durante a chuva intensa de Junho, aquela casa antiga e sem luxo se tornava acolhedora. Era um ambiente onde éramos nós mesmos. Não que em algum momento fingíssemos algo a alguém, mas aquela cozinha, aqueles cheiros de tempero do almoço em preparo, parece que havia algo mágico, que fazia com que nos uníssemos mais do que em qualquer outra data específica, como o natal, por exemplo. Falávamos do passado, de um tio que matou um gato-do-mato que comia as galinhas, de um manequim de loja roubado pelo meu avô pra dar susto na minha avó, de cumade fulôzinha (é assim mesmo que se escreve), chupa-cabra e outras aberrações que nos intimidavam, do prefeito da cidade vizinha que traiu a mulher com o cunhado, de uma tia gorda diabética que não parava de comer doce, da imensidão do mar pros que não conhecem, de amendoins a meteoros, de cigarros a encanamentos... Enfim, mil histórias e fatos passados que fez daquele momento algo único, eternizado em minha mente com toda a simplicidade de uma vida campestre. Não, não confundam. Eu não curto viver no campo. Embora acordar com buzina de carro não seja nem um pouco agradável quanto se acordar com som de galo cantando e tilintar de talheres na cozinha, a vida no campo não me agrada tanto. Ainda prefiro a agitação humana de um ambiente urbano.
Aquele momento no interior foi singular. Quando me recordo, aprendo a valorizar as coisas mais simples da vida, valorizar as pessoas, mesmo as mais ignorantes, se assim as posso chamar. Elas também têm algo a falar, algo de útil, embora não pareça à primeira vista. É bom ouvir, se aprende mais. A chuva batendo no telhado me trouxe isso. Talvez esse seja este, o de fazer lembranças vir à tona, o seu mais nobre motivo num momento nostálgico. Todo esse tédio umidecido que ela traz quando não a desejamos, camufla sua principal atuação: ela traz vida, faz crescer não só as plantas, mas sim germinar algo aqui dentro que às vezes não falamos para o outro por falta de tempo, ou oportunidade, ou coragem na cara. Considerando que a casa, o ambiente físico, seja uma semente, o que está dentro dela, as pessoas, tendem a ficar mais maleáveis e pacientes, ouvimos mais. Da forma que uma semente germina e cresce, assim seríamos nós perante a chuva. Ficar em casa, em standby, faz com que a aproximação entre as pessoas se torne mais forte, conversa-se mais, rir-se mais, conseguimos descobrir mais sobre uma pessoa num momento simples de conversa do que numa convivência de vinte anos. Isso é incrivelmente verdade, é só experimentar. Então, que a janela embace e a lama suje meus pés. Quero mais que chova...











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